O post de hoje é mais um dos brilhantes textos do Tulio Fernando, que é um dos membros do blog e do jornal O Manifesto. Acadêmico do curso de História pela UEG, escreveu esse conto recordando alguns fatos que com certeza, sei que vocês irão se identificar. Uma leitura que nos relembra momentos que passamos na "roça" dos nosso avós, recordando os sons, gestos, cheiros que se perderam no tempo e dentro de nós...mas, que de alguma forma ainda se manifestam em nossas lembranças!!
Um leitura que nos remete lentamente a nossa infância de pés sujos e descalços...
Do primitivo ao
civilizado
Ainda me recordo nostalgicamente dos
venerados tempos dourados de outrora. Ainda me lembro da canção de amor
fraternal que fazia ecos em meu ouvir, quando minha mãe, sempre a última a se
deitar e a primeira a se levantar, distinguia-se entre as ramagens verdes do
capim estendendo a roupa no varal. Hei de não me esquecer de meu pai assoviando
nas frias madrugadas cobertas por neblina e serração enquanto buscava as vacas
para o inacabável trabalho da ordenha. Relembro com extrema saudade da minha
empolgação infantil ao recolher o copo de alumínio na estante feita pelas mãos
de meu pai, e da fumaça fumegante do café que se levantava quando eu o enchia
pela metade, reservando a outra para o leite cru, tirado na hora. Beber leito
no curral é o que mais me remete a minha meninice. Era nessa hora fatídica,
quando o sol ainda era muito novo para esquentar, e ainda tinha pouca vontade
de começar o seu trabalho de Sísifo, que as roças e as ciliares revigoravam o
mundo com a força eloquente de sua orquestra composta pelas emas, pela inhuma,
e toda a espécie de bípedes canoros. O fato de eu não ter estudado quando era
pequeno, não me impediu de aprender na escola magnânima da vida, assim como
aprendi a paixão pelos galopes que fazia com meu pai sempre no final do dia,
onde ao invés de álgebra ele me ensinava a calcular de cabeça utilizando-se de
arrobas, dúzias, réstias e todo tipo de numeração. Ao invés das aulas de
educação física, meu exercício consistia em pegar o frango para o almoço.
Tarefa árdua esta, que exigia muita dedicação e paciência. Ainda sinto o gosto
do pão de queijo ao me lembrar do cheiro que ele desprendia ao ser assado no
forno de lenha. Gosto de me lembrar das tardes chuvosas e do astro rei que as
sucedia, trazendo iridescência acima da represa que banhava os pomares no pé da
serra, e do gado se recolhendo na invernada. Quando o sol se rendia humildemente sua
luminescência para dar lugar as lendas e estórias iluminadas pela lua, a
orquestra canora era substituída pelo coaxar dos sapos entretidos em seus lares
de águas diáfanas. O dia se cobria em noite e no manto negro do firmamento, constelações
de miríades incidiam o mundo tentando sobrepor-se a luz da lua cheia. Distantes
a bilhões de quilômetros, os vaga-lumes se organizavam, para também dar a sua
contribuição á luz do mundo. Por vezes em bandos, que sempre vinham nos
escoltar nos caminhos da noite longa. Por vezes sozinhos, como a procurar uma
razão irracional para iluminar estes seres que se dizem racionais. As rodas de
viola daquele tempo me lembram com saudade de quando a música sertaneja ainda
era sertaneja, e não se resumia a traições, falácias, e chavões deprimentes. De
quando ainda havia letra, e não um amontoado de poucas palavras. Infelizmente o
que ouço hoje é o estertor, (inaudível para muitos) do que um dia foi música
sertaneja. Se o sertanejo é acima de tudo um forte, como li em um grande livro
certa vez, hei de fazer jus a esta mônada. As pessoas me olham hoje como o
expoente de uma geração que não existe mais, e pior de tudo, que não existirá
pelos tempos dos tempos. E me dão de presente estereótipos. Me chamam de velho,
de obsoleto, de primitivo.
Aqui vivo eu hoje, nesta selva de pedra.
Aqui vivo eu, com os civilizados. Aqui ninguém se preocupa com as cores do arco
íris, pois não há nenhum lago ou represa para sua luz incidir. Aqui ninguém
escuta os pássaros cantando quando vem rompendo o dia, pois aqui não vivem
pássaros, foram substituídos por engenhocas mecânicas que não levam se não
viventes destas paragens de um lugar a outro. Os pássaros não são bem vindos
aqui, e estes que por aqui vivem, engaiolados em armações de metal, não cantam
para alegrar o ambiente, mas choram pelo fim da liberdade. Bem verdade é que
quando por aqui passam, nos olham com seu jeito de quem entende o mundo e se
envergonham. Acabam por cagar em nossas cabeças, não por necessidades
fisiológicas, mas por desprezo infinito daqueles que se dizem racionais. Aqui
ninguém acorda cedo para tomar leite no curral, dizem que faz mal a saúde. Os
vaga-lumes não são necessários aqui, portanto não fazem suas benfazejas
escoltas noturnas, nos lembrando que apesar de tudo ainda existem seres
iluminados sempre prontos a andar do nosso lado. Para isso temos as luzes
suspendidas em numerosos totens de concreto. Aqui não há gado. Já foram
comidos. Depois que se aproveita até o último pêlo deles, nos esquecemos de que
dependemos mais deles que eles de nós. Aqui as pessoas não se lembram das
estrelas e tampouco as estrelas se preocupam com elas. E por ventura quando um
casal apaixonado é visto admirando a lua cheia, são taxados de doidos, por que
aqui até do amor as pessoas se envergonham. As pessoas não tem tempo para estas
coisas pequenas. Estão preocupadas demais. Apressadas demais. Como eu li em um
outro livro certa vez, passam a maior parte da vida a gastar sua saúde tentando
ganhar dinheiro, e a outra parte gastando dinheiro para recuperar a saúde
esvaída. Elas não vêem, não enxergam que essas coisas pequenas na verdade são
maiores que elas. Não entendem que são as pequenas coisas que realmente valem a
pena, assim como são as pequenas demonstrações de carinho e afeto que comandam
as relações humanas. Que é isso que nos torna humanos e não máquinas. Aqui eu
morrerei, nesta instância bucólica, em meu estado de misantropia. É bem verdade
que prefiro viver e morrer só, como o ser primitivo que sou, do que conviver
com os felizardos modernos. Assim como meu sertão ficou para trás á muito, e
não há remédio para que ele volte, junto com o mundo de outrora, não há mais
remédio para este mundo. A epopéia está chegando ao fim, e desta vez não vejo
um final feliz para Ulisses. Mas me aproveito destas linhas para deixar um
pedido; quando eu morrer, escrevam sobre a minha lápide: aqui jaz um primitivo.
Tulio Fernando
Muito bom o texto, bem dita essas verdades!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirGalera é uma honra para min.. que possamos sempre compartilhar nossas idéias.. gabi fiquei lisonjeado com a introdução que você fez de meu conto.. abraço a todos..
ResponderExcluirValeu Jéssica por participar aqui do nosso blog!!
ResponderExcluirParabéns Túlio, voltei mesmo aqui em meu passado similar ao de todos "roceiros"!
ResponderExcluirMuito bom.
Excelente texto, nos mostra a necessidade de fazermos todo dia uma reflexão,
ResponderExcluireliminando os excessos e conservando o simples, Parabéns Túlio! Continue nos
presenteando com sua arte...
poxa valeu mesmo por participar de nosso blog Jhonne.. abraçao meu amigo, e você continue nos presenteando com sua determinação..abraço.
ResponderExcluirtulim mandou bem cara... eu nao tenho nem oq comentar...
ResponderExcluirMe emociono por poder fazer parte disso tudo.
ResponderExcluirParabéns, atrasado, pelo seu lindo texto, homem.
Continue escrevendo assim.
A tendência é melhorar!
Tulio muy buen texto.
ResponderExcluirSaludos
David